sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Um livro para ser lido várias vezes | Ostra feliz não faz pérola




“Contarei o milagre, mas não contarei os santos. Não lhes pedi permissão. Era um lindo casal de brasileiros que faziam estudos avançados na Universidade de Lovaina, na Bélgica. Convidaram-nos para uma recepção e lá foram eles elegantemente vestidos. Música. Danças. Dançavam eles no salão quando notaram que os outros casais paravam de dançar e formavam uma roda ao seu redor, todos a olhar para eles. Pensaram: devemos estar dançando muito bem. Aí capricharam nos passos para não desapontar a plateia até que a música terminou. Ao se aproximarem de um professor amigo ele lhes disse com um divertido sorriso:” É a primeira vez que vejo um casal dançando o hino nacional da Bélgica” .
 (Livro Ostra feliz não faz pérola)


Livro: Ostra feliz não faz pérola

Autor: Rubem Alves

Páginas: 280

Editora: Planeta

Sinopse: O autor define seu livro: “Pessoas felizes não sentem necessidade de criar. O ato criador, seja na ciência ou arte, surge sempre de uma dor. Não é preciso que seja uma dor doída. Por vezes, a dor aparece como aquela coceira que tem o nome de curiosidade. Este livro está cheio de areias pontudas que me machucaram. Para me livrar da dor, escrevi”.



 Neste livro, Alves constrói uma teia com diversos pensamentos e citações sobre assuntos fundamentais à sociedade e ao ser humano. Em sessões diferentes, ele comenta sobre a morte, sobre a vida, sobre a religião, velhice, educação, política, saúde mental, natureza, amor e outros diversos temas. Todos eles tratados de forma leve, que prende a pessoa que está lendo do inicio ao fim.

No livro, Alves dialoga com o leitor, faz questionamentos sobre diferentes percepções de vida. Ele não se impõe, pelo contrário, apresenta suas ideias e convida a reflexão. Incrível como a sua narrativa simples e sensível consegue fazer com que a leitura fique ainda mais agradável.

“Há livros maravilhosos que a gente lê uma vez. Não adianta ler à segunda porque já sabe o fim da estória. Outros não contam estória alguma, são feitos de fragmentos inconclusos, e cada fragmento é uma chave para o mundo inteiro”.
(Livro Ostra feliz não faz pérola).

Difícil fazer uma ‘resenha’ do livro, porque não é um texto simples, padronizado, fechado. Pelo contrário, Ostra feliz não faz pérola é um convite à análise (seja sobre a vida ou sobre a morte).

Gosto especialmente do título, acho que uma das coisas mais linda que já li.

Rubem Alves é simplesmente incrível, e seus textos que fazem parte do livro são maravilhosos. Claro que tem alguns ao qual eu não concorde muito, mas sobre isso não tenho nada a acrescentar, porque continua sendo maravilhoso de todo o jeito. Acho que vocês estão aí pensando que estou me referindo muito bem ao livro, e que isso cheire a alguma forma de merchan. Mas não caro leitor, quem teve o prazer de ler Rubem Alves sabe do que estou escrevendo.


Mas para não ficar apenas em minhas palavras, confira outros trechos do livro:

Pois havia num fundo de mar uma colônia de ostras, muitas ostras. Eram ostras felizes. Sabia-se que eram ostras felizes porque de dentro de suas conchas saída uma delicada melodia, música aquática, como se fosse um canto gregoriano, todas cantando a mesma música. Com uma exceção: de uma ostra solitária que fazia um solo solitário.



Diferente da alegre música aquática, ela cantava um canto muito triste. As ostras felizes se riam dela e diziam: “Ela não sai da sua depressão”… Não era depressão, era dor. Pois um grão de areia havia entrado dentro da sua carne e doía, doía, doía. E ela não tinha jeito de se livrar dele, do grão de areia. Mas era possível livrar-se da dor. O seu corpo sabia que para se livrar da dor que o grão de areia lhe provocava, em virtude de sua aspereza, arestas e pontas, bastava envolve-lo com uma substancia lisa, brilhante e redonda.



Assim, enquanto cantava seu canto triste, o seu corpo fazia o trabalho – por causa da dor que o grão de areia lhe causava. Um dia, passou por ali um pescador com o seu barco. Lançou a rede e toda a colônia de ostras, inclusive a sofredora, foi pescada. O pescador se alegrou, levou-as para casa e sua mulher fez uma deliciosa sopa de ostras. Deliciando-se com as ostras, de repente seus dentes bateram num objeto duro que estava dentro de uma ostra.



Ele o tomou nos dedos e sorriu de felicidade: era uma linda pérola. Apenas a ostra sofredora fizera uma pérola. Ele a tomou e deu-a de presente para a sua esposa. Isso é verdade para as ostras. E é verdade para os seres humanos.  No seu ensaio sobre o nascimento da tragédia grega a partir do espírito da música, Nietzsche observou que os gregos, por oposição dos cristãos, levavam a tragédia a sério.”



“Deus é isto: A beleza que se ouve no silêncio. Daí a importância de saber ouvir os outros: a beleza mora lá também”.

Embora já houvesse lido alguns textos de Rubem Alves, Ostra feliz não faz pérola foi à primeira obra completa que li deste autor. Assim como ocorrera outrora com os textos soltos, posso afirmar que o livro é um primor que nos conduz a uma celebração da vida.
Sem dúvida, uma obra digna de ser lida, relida, dessas que deixamos em nossa cabeceira, sempre à mão!  

Espero que você tenha gostado da resenha, quem sabe até deixei você um pouco curioso né mesmo?




2 comentários:

  1. Fiquei bem curioso rsrs.
    Lerei com certeza. Parabéns pelo post, Sarinha ^^

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    Respostas
    1. Obrigada Davi, leia mesmo acredito que não vai se arrepender.

      Excluir

Oiii... obrigada pela sua visita ^^
Espero que tenham gostado do blog :D
Caso encontrou algum erro ortográfico avise que vai ser corrigido.
Volte mais vezes *_*

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